Sunday, June 14, 2009

Ser editor, hoje Sede de Justiça e outras notícias

Quartim de Moraes tem coluna sobre mercado editorial no Estadão
Com o primeiro texto fiquei surpresa e alegre. Certa vez ele mandara importante contribuição sobre práticas do mercado editorial para a Folha, quando se discutia cobrança de jabá para ocupar com pilhas de livros as rodas das grandes livrarias, seu artigo foi ignorado. Neste sábado, 13 de junho, deparo-me novamente com Quartim escrevendo na segunda página do Estadão, sobre mercado editorial. Tenho de celebrar, inclusive escrevendo para a coluna de leitores no Estadão. Muitas coisas foram mudadas para nas compras governamentais de livros porque o caderno 2 do Estadão deu voz para os pequenos editores. Agora somos nós que temos de cobrar de nossos próprios pares, nós nos tornamos lobos uns dos outros, porque nos associarmos não nos dá o direito de nos comportarmos com complacência com a violação de princípios éticos. O princípio da isonomia é uma coisa, mas adotarmos cegamente o corporativismo complacente é o fim de nosso ideal originário.

Caro amigo Quartim, você me mandou um e-mail com seu novo e-mail, quando incorporou sua Conex à Ediouro. Mas eu o perdi. Mande-me novamente. Quero escrever-lhe para parabenizá-lo. Você sumiu da Libre, e nos faz muita falta. Sua voz ainda nos é necessária e eu fico perguntando, "onde estão as neves de antanho?", não é saudosismo, mas sede diária de justiça, que as suas oportunas intervenções na área do nosso ofício editorial ajuda a aplacar. Com sua coluna no Estadão, que espero que dure, você volta a ser nossa voz, na atividade editorial de criação, não apenas de um mercado tocado pela demanda. Com nossos livros, somos mais editores de oferta do que de demanda. Queremos criar público. Somos editores de criação. Fale sempre, Quartim estou celebrando sua coluna no Estadão.

Superstições: Contra elas preciso me tratar. Preciso mesmo é perder a intuição para o avistamento do horror. Numa madrugada dessas, via Apocalypse Now, e aquela expressão diante da exorbitância do crime sem limites, "o horror, o horror". cada vez que uma cobra surge na tela da televisão, na página inicial do provedor da internet, ou figura no jornal, para mim é um aviso. Se sonho com cobra é um aviso, vai chegar má notícia. E uma ação alheia que me derruba no chão, pelo menos até eu me levantar, chega. Estou acreditando em superstições, mas não quero acreditar. Penso em levar isto para uma análise. Como na canção interpretada pela Susan Boyle, "transformam nossos sonhos em vergonha".

Hoje não consigo comentar o horror da "receptação" indevida entre os editores. Um mesmo tradutor vende a tradução do mesmo livro duas vezes e acha um receptador (gravíssimo porque o receptador conhece quem tem a edição da tradução em catálogo, e fazemos parte de uma entidade cujo objetivo é a inovação pioneira em ações louváveis). Outro editor manda fazer um trabalho e um dos revisores vende parte desse trabalho a outra editora. Tudo isso foi veiculado no nosso grupo de discussão na rede. Ninguém se comoveu. No meu caso, o do tradutor, fui ridicularizada pela sócia "violadora" por pedir ética, mas recebi apoios por vias diretas e transversais. Talvez seja uma questão equivocada o ser "político" com seus associados, por complacência ou corporativismo ou por corporativismo complacente. Precisamos de um Código de Ética, na Libre. A Câmara Brasileira do Livro, exemplarmente, tem seu Código de Ética para os associados, nos mandou impresso e o ostenta em seu site (www.cbl.org.br). Parabenizo a CBL, da qual também sou associada. Mas quando nos daremos conta, os pequenos editoes associados e ousados? Quando vamos nos pronunciar contra o malfeito denunciado pela Editora Contraponto aos seus pares, no grupo, e não falamos nada? Como não nos solidarizamos com livrarias e editoras que fecharam, nomes e renomes entre associados e do mercado editorial? Há as clássicas vozes que se levantam, mas não há respaldo do conjunto, mas precisamos dasensibilização dos atuais dirigentes. Temos de nos pautar pela justiça contextualizada não pela complacência "político corporativa".

A equação mais malsã, no caso de quem vende a tradução do mesmo livro duas vezes, é formada por esses termos: mercenário, oportunista, desleal, inconsequente, antiprofissional, inconsciente, bajulador do suposto poderoso do momento, o herói sedutor sem ética e sem caráter, capaz de enganar os santos entronizados nos altares, com o seu discurso sentimental. Isto é mais possível quando o demônio tem talento. E receptador entre nossos pares que não se importa com os pares, vendo a vantagem antes do princípio.

Hoje procuro não receber mais originais que estão sendo examinados por outro editor, até que ele diga não.
O que eu digo, não se trata da natural dança das cadeiras Mas regras éticas que aprendi, inclusive entre os editores internacionais. Mesmo com edições esgotadas de grandes nomes por longos anos, a editora estrangeira só aceitava novo contrato com outra editora, com carta de reversão de direitos assinada pela primeira casa. São rituais éticos civilizados. Pela minha experiência ultimamente, prevalece a defesa do predador, mesmo não contando com quem possa entender este caso de imediato, tal a alienação complacente geral, não desisto de denunciá-lo ao vento. E me solidarizo com qualquer relato desse jaez, além dos dois fatos aqui relatados. Contei hoje esta história por e-mail a um editor da área cultural do jornal. Será que ele me responderá?

Wednesday, June 10, 2009

"MAIS CULTURA", ser editor, hoje Carta aberta ao Presidente da República e ao Ministro da Cultura Juca Ferreira

Eu já clamei, clamarei novamente, hoje. Falaria de feiras de livros neste posto. Mas preciso escrever esta

Carta Aberta ao Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e ao Ministro da Cultura Juca Ferreira

O programa "Mais Cultura" do Ministério da Cultura é uma beleza. Contempla a diversidade dos catálogos das pequenas e grandes editoras, ainda não dando conta de tudo, mas avança.

Mas a sua implantação penaliza os editores, sobretudo os pequenos editores. Repito, para tornar a edição economicamente viável, temos de imprimir a tiragem toda encomendada, honrar custos gráficos e de produção. As entregas se fazem por pequenas etapas. Naturalmente que nossos fornecedores gráficos não nos dão um ano para pagar. Temos de segurar o preço de capa dos livros, mas os custos gráficos sobrem (papel aumenta, falam-nos de dissídios, os Correios sobem suas tarifas sem nenhum pudor). Tudo conspira jogando-nos custos administrativos inimagináveis, automáticos, e bravamente os editores fazem seus livros para que sejam entregues. Sempre se repete a notícia do contingenciamento das verbas do Ministério da Cultura. Por quê?

Queria argumentar, com o PNBE-FNDE-MEC, isto não acontece. Editores entregam todos os livros e recebem todos os livros, apesar do aumento dos custos gráficos e demais custos. Todos os fornecedores raciocinam como se não houvesse uma planilha de custos na confecção do livro, se vamos receber do governo, temos de entregar tudo. É o desequilíbrio total. Fazer tudo no curto prazo e entregar no longo prazo, aos picadinhos.

Sei que o senhor Ministro da Cultura é um homem de sensibilidade, gostaria que olhasse sobretudo para os pequenos editores, pioneiros na arte de fazer livros. Inovadores em suas edições. Já é truismo que as inovações editoriais, as revelações de futuros consagrados autores originam-se em Casas pequenas. Apiedai-vos dos editores, senhor Ministro Juca Ferreira! Apiedai-vos do Ministério da Cultura, senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Essa minhas mal-escritas linhas são realmente um grito de socorro para que possamos fazer mais livros, criar empregos, ter mais vida, humanizar as comunidades mais longínquas, tornando possível o objetivo do programa "Mais Cultura" em toda a sua dimensão educacional civilizatória:

"Contribuir para que o livro, sobretudo o de literatura, ocupe lugar de destaque no cotidiano do brasileiro."

Não deixem morrer, senhor Presidente da República, e senhor Ministro da Cultura, a paixão pela bibliodiversidade dos pequenos editores, de todos os editores. Não somos espertos, somos crentes no poder universal do livro e da leitura democratizados. Apiedai-vos de nós, descontigenciando as verbas do livro.

Monday, June 01, 2009

De Susan Boyle a escolhas governamentais de livros

A mulher mais feia
pode ser mais bela
que a mulher bonita

Estes são três versos de um livro que vou publicar, de minha autoria: "Viagem aos peitos de Babá", porque quando eu era adolescente descobri um conto de Aníbal Machado "Viagem aos seios de Duília", daí a paródia do meu título. Era um segredo editorial, que resolvi revelar, por causa de Susan Boyle.

Eu me tornei fã de Susan Boyle, estou entre os milhões que ouviram, ouvem e ouvirão sua voz nos seus vídeos espalhados pela rede mundial. Se ela perdeu a final do programa de calouros, porque o modismo de misturar atrações díspares como prática viciosa do entretenimento falou mais alto. O público médio pode acertar, mas no geral tem apenas critério de rebanho ou não tem nenhum critério. Susan não precisava mais ganhar o programa de calouros, embora cada admirador que a verdadeiramente ama torcesse para sua vitória na sua aparição repaginada, já não como uma caloura, mas como uma profissional que não queremos mais abandonar. Comprarei seu disco.

Susan não foi descoberta naquele palco. Ir ao programa foi sua grande cartada, pois tentava se apresentar e nunca era vista.

Envelheceu e engordou, adquiriu antes dos 50 uma aparência de 60. Ao cantar tornou-se jovem e bela, pois transfigurou-se em iluminação aos nossos olhos incrédulos e todos aplaudem. Virou uma tigresa vitoriosa, como disse o jurado Simon Cowell.

Diante de sua figura no palco eu me sinto orgulhosa e emocionada. Choro de alegria. Susan Boyle não é uma descoberta de um programa de calouros, simplesmente, mas comparecendo a ele, tornou-se um insight, provocou um insight em todo o mundo. Foi descoberta. E isto é tudo, ela é uma cantora profissional e esperamos que receba o tratamento de estrela com luz própria para que possamos tê-la em discos e turnês.

Tudo me faz lembrar a história de Abraão, que ouvi de Irmã Josefina na aula de religião. Abraão tinha 100 anos quando nasceu seu filho Isaac, o início de sua grande descendência, mais numerosa que as areias do mar e as estrelas do céu. Ele viu o dia e riu, e o riso de Abraão foi o nascimento de Isaac na velhice dos pais: Abraão e Sara. Ele esperou contra toda a esperança. Tornou-se os pai dos crentes. Na época, meio criança e já adolescente eu não entendia o que era esperar contra toda esperança. Começo a entender, por outros fatos e este de Susan Boyle, não há idade para se rir quando vemos o nosso dia, embora os tempos sejam difíceis e os obstáculos, a pedra de Drummond está sempre no meio do caminho. Os espíritos-de porco e desmancha-prazeres sabotam tudo. Susan Boyle transcendeu todo o burocratismo do marketing do entretenimento, ela foi ela mesma e a temos. Que ninguém nos roube Susan Boyle de volta ao anonimato. E não é uma celebridade instantânea no sentido lato, ela é um insight da nossa cegueira média que se tornou iluminação.

O que tem tudo a ver com as escolhas de livros para os programas governamentais. Temos de transformar nossa cegueira em insight. O politicamente correto domina os critérios ao lado de modismos de poesia confundida com mensagens edificantes. Além do jogo de interesses defendidos pelo marketing médio das editoras mais pragmáticas e economicamente potentes, que querem instrumentalizar tudo a seu favor. Se for preciso truncar um clássico, vamos truncar para caber no receituário do livrinho do "Literatura em Minha Casa", que graças a Deus foi tarde na forma que tinha. O importante é que os livros de catálogo chegassem às bibliotecas escolares e comunitárias, e estão chegando. E mesmo às casas, se houvesse verbas para isso. Hoje o Estadão traz matéria com opiniões diferentes, que relato outra hora. Destaco o que disse Ana Maria Machado, não para concordar totalmente. Ela fala que as escolhas precisam se pautar pelas listas prontas de instituições prestigiosas e respeitadas como o Instituto Brasil Leitor e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Não basta. A repetição de acervos do Mec foi gerado pela consulta única a essas listas. Concentração de autores e títulos, portanto, embora as referências sejam bem-vindas, precisamos sempre ir além, na busca do que não estamos enxergando. Como editor, hoje, tenho procurado fazer os que os outros editores não estão fazendo, buscando títulos e autores, sejam clássicos ou modernos, inéditos ou desaparecidos dos catálogos. Se um autor seu faz sucesso, todos correm atrás dele, muitas vezes violando-se a ética entre os pares. O critério do bem escrever sempre tem de prevalecer e a capacidade de descobrir Susan Boyle ou reconhecê-la quando canta, tudo o que possa ultrapassar o instantâneo do programa de calouros. Susan Boyle ultrapassou. Um bom autor e um bom livro podem não estar em uma lista. Em obras de ficção e poesia, prevalecer literatura, sem que o modismo e o politicamente correto lancem sua mão pesada. Bibliodiversidade. Eu também me espantava com os cartazes espalhados pelo colégio, enquanto vadiava pelos pátios e corredores, como aquele cartaz da Irmã Emerenciana para as suas catequistas: "Cada criança é um ser inédito, uma palavra de Deus que não se repete mais."
Eu queria saber o que era inédito. Cherchez le dictionnaire. Cada livro é um ser inédito, cada escolha, desde o editor, é uma escolha inédita, uma palavra de Deus que não se repete mais. Também Susan Boyle. Quem diria, eu que que rejeitei as freiras, escrevendo que elas eram ingênuas, já fora do colégio, estou homenageando-as. Irmã Josefina era outro papo. Por causa dela, bibliotecária, saí dos infanto-juvenis para a literatura universal de qualidade, autores brasileiros e estrangeiros. Embora meu pai nos comprasse grandes livros em casa.

Meu próximo assunto serão as feiras de livros que espocam por toda parte e junto com elas espocam as berrantes mercadorias dos vendedores porta-a-porta, livros que não são livros, mas quinquilharias impressas, vendidas a R$1,99. Embora haja muitos bons livros que não são vendidos, alguns divulgados como consolo à participação custosa por causa dos preços dos estandes, alimenta-se o público com o anódino dos papéis pintados que não podem alimentar espíritos nem intelectos, mas como atrair a atenção para aqueles livros que editados ainda são seres inéditos, cada qual uma palavra de Deus que não se repete mais? Livros de fundo, os fundamentos de todas as boas bibliotecas.

Saturday, May 30, 2009

Modismo das Escolhas "Ler e Escrever"

Avançou-se muito nas compras governamentais. Programas foram criados e aprimorados, no sentido de abranger a universalidade, a não repetição de acervos, o teto para inscrição de títulos (para que os maiores não atropelem os menores, mas criam-se novos selos para driblar este limite). Mesmo assim, a inquidade concentratória foi derrotada nos principais programas do MEC, sobretudo no Programa Nacional Biblioteca da Escola do FNDE. Ainda não basta. Porque o MEC precisa positivamente contagiar as pontas da educação e cultura, secretarias de estado e secretarias municipais.

Prefeitos, sobretudo do interior, embarcam em pacotes prontos a preços astronômicos, que privilegiam apostilas que subtraem com licença ou sem licença conteúdo dos livros editados e mastigam para os incautos em linguagem com erros crassos ou diluições ralas da polpa nutricional a que todos têm direito. Roubam o acesso ao livro. Não há desculpas para prosperarem as abomináveis apostilas, devemos radicalizar nossas vozes contra. Houve recentemente uma chamada para Pregão Eletrônico, da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, que destinava quatro milhões de reais para compra de apenas dez títulos e ninguém foi informado. Ficamos sabendo que era um desse pacotes fechados com grande instituição. Parece que a coisa foi consertada, após protestos de alguns editores bem atentos, o pregão foi suspenso, tomara que todos sejamos chamados para apresentação de nossos catálogos, com um teto para inscrição de títulos por editora, é claro. Tratava-se de um pacote criado pela Fundação Roberto Marinho, que negocia também pacotes com prefeituras e secretarias de estado. Se baixamos a guarda, a concentração vantajosa para pouquíssimos numa sabotagem ao princípio da isonomia e à bibliodiversidade, cobrirá o país e a economia do livro será massacrada por equívocos gerados pela desinformação de nossos órgãos públicos, municipais e estaduais, cujos ocupantes embarcam ao chamado do canto das sereias espertas e se esquecem de que há uma universalidade de editoras grandes e pequenas e grande diversidade de bons livros no mundo editorial destacando-se como pérolas na amplitude das edições descartáveis. A bibliodiversidade é possível na formação de acervos ricos, numerosos e variados. Cada livro é único, juntos e variados formam acervos que podem formar pessoas, atraí-las às bibliotecas escolares e comunitárias. Pacotes vendidos fechados trazem o equívoco, escravizam para o consumo de quinquilharias pseupedagógicas, pseudoliterárias e pseudoculturais. Além do pésimo hábito de se chover sempre no molhado, não vendo nada além do modismo médio das escolhas sobre sempre os mesmos, alguns bons autores, mas eles mesmos clamam para além disso. Bons autores clamam pela companhia de outros bons autores. Tocar o coração do público médio com bons autores e bons livros, pinçados da diversidade dos catálogos.

Mesmo em programas respeitáveis, há o equívoco das escolhas. Para a vivência média precisamos das classificações por faixa etária, nem aprovo censura, sobretudo não aprovo modismos. Livros bons são descartados, enquanto o modismo é valorizado. Chovem sempre no molhado, nem olham se poesia é mesmo poesia, "vamos escolher o tema, o gênero, a gracinha no lugar do humor, a historinha no lugar da narrativa, vamos renegar os mestres, vamos valorizar a fórmula em vez da forma". Eu disse que "O Elefante Infante", do Rudyard Kipling, não entrou em São Paulo, que eu julgo um estado respeitável, cujos programas foram sempre bem conduzidos em termos de inscrição e escolha (salvo esses modismos que levaram o "inadequado" às crianças da terceira série,"é" quadrinhos, vamos escolher, temos de colocar quadrinhos na Biblioteca" (o livro escolhido pode nem ser ruim, porque se destina a um estágio além de maturidade, o problema em qualquer estágio é o avaliar por tópicos pedagógicos de moda, não por valores literários), sejam quadrinhos ou o que quer que seja, ora, temos é de colocar bons livros, de autores óbvios ou não, até gente de fama escreve literariamente maus livros, temos de descobrir bons livros, além do óbvio, para formar acervos para as bibliotecas escolares e comunitárias). O "Elefante Infante", de Rudyard Kipling, tradução do Adriano Messias, ilustrações do Fernando Vilela, entrou na Prefeitura de Belo Horizonte. Quem viu enxergou, entrou também no programa "Mais Cultura" do Ministério da Cultura/Biblioteca Nacional. Mas deste belo programa preciso falar algo, falo em parágrafo abaixo.

Agora quero tocar nesse equívoco do modismo das escolhas por quem prefere chover no molhado e executar fórmulas, do que enxergar bons livros com aspecto não óbvio, tanto no projeto gráfico como no conteúdo. É muita receita pronta de bolinho e pouca ousadia. Quando falo de ousadia, peço para enxergar valores literários na simplicidade, não apenas o simplório da falsa poesia. As classificações de gênero, as cotas temáticas.

Há anos inscrevo "Ronda de Fogo", da Cacy Cordovil, em São Paulo e em todos os lugares. Este é livro para ensino médio, ou para Educação de Jovens e Adultos, EJA. Para quem não sabe, Cacy Cordovil foi a primeira musa do Vinícius de Moraes. Quando o livro saiu, Bernardo Ajzenberg escreveu na "Folha de S. Paulo": "O relançamento de "Ronda de Fogo", de Cacy Cordovil, é mais do que um resgate histórico oportuno e merecido. (...) Publicado originalmente em 1941, à véspera da autora completar 30 anos, pela prestigiosa Editora José Olympio [publicado hoje pela Musa Editora], obteve boa repercussão. Álvaro Lins, um dos maiores críticos que o país já teve, reconheceu nele 'um estilo singular' e admitiu ter tido à sua leitura uma 'impressão profunda'. Sérgio Milliet, outro nome de peso, viu na obra 'firmeza de construção', 'astúcia psicológica', 'indiscutível talento literário'. Monteiro Lobato notou-lhe a 'enfibradura dos que são escritores natos'. (...) Os contos de Cacy se dividem em dois grupos. Quatro são urbanos, os demais "causos" do interior do país. Neste segundo grupo surgem histórias de rendeiras, tropeiros, caçadores, coronéis, intrigas amorosas, batismos de fogo, confrontos com a natureza ou com entidades imateriais da mata. Não há estereótipos, porém. Os personagens são únicos, de vida própria, sofrem de modo autoral, por assim dizer." Mas Cacy, que veio a se tornar nora de Vicente de Carvalho interrompeu sua carreira literária, reaparecendo com o sempre novíssimo "Ronda de Fogo", nenhum avaliador oficial enxerga, não é óbvia, apesar do José Castello apresentá-la na orelha da edição da Musa e no texto da biografia do Vinícius, "Poeta da Paixão", como a primeira musa do autor do Soneto da Fidelidade. Mas nós que conhecemos a inesquecível Cacy, continuaremos a falar dela e a mostrar seu livro.

Prefeitura de São Paulo, tem um belo programa para Bibliotecas, associado aos órgãos de classe. mas padece do problema: ainda não impôs limite para as inscrições. Então a distorção está instalada. Há editora com 157 títulos escolhidos para as Salas de Leitura, pois cada editora diligente pode inscrever tudo o que tem em catálogo, sem limites, e, com marketing poderoso, impede a diversidade e ofende o princípio da isonomia, perpetrando a concentração daninha à economia do livro. Não há pois igualdade de oportunidades para os editores, mas favorecimento à gincana de quem chega primeiro e com mais títulos (mesmo em nossos catálogos, nem tudo é adequado à seleção ideal de um programa, conceder este privilégio do ilimitado nas inscrições é um prejuízo também para o público escolar e comunitário, alijado do além do mesmo em ofertas redundantes) . Como fez o MEC e faz cada dia mais, é preciso criar um código de ética da concorrência nessa corrida dos espertos. Mas este programa está atrasado, pois o prefeito Kassab não fez a dotação para que fosse cumprido no tempo prometido, os livros escolhidos para as 57 Salas de leitura, que seriam comprados até fevereiro deste ano. Estamos esperando, há notícias de retomada, mas é preciso ser o programa aperfeiçoado. Para contemplar a universalidade, a democratização das escolhas e a diversidade. Primeiro: teto para número de títulos por editora nas inscrições como faz exemplarmente o MEC, apesar das driblagens dos selos múltiplos das grandes casas.

Programa "Mais Cultura", do MinC, Biblioteca Nacional, temos de pedir ao ministro Juca Ferreira que interceda pelos editores nesse contingenciamento cruel de verbas federais, que nos fazem entregar os livros do programa em pequenas parcelas de 300, 300, 200, numa destinação de 2.500 exemplares. Por quê? Todos devem saber que temos de fazer a tiragem inteira para tornar viável o custo da edição. Neste caso, se fizermos os livros por demanda, inviabilizamos os custos. Estamos com os livros nos armazéns da gráfica, aguardando ordens para novas entregas. Isto vai longe. Sem nenhuma piedade pelos editores que resistem (Eu faço livros com quem morre, parodiando Manuel Bandeira, que comecei a ler na infância). Deveria ser como os programas do MEC, entregamos todos os livros juntos e só o Ministério da Cultura precisa ser vítima desse contingenciamento de verbas federais? Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, olhai para os pequenos editores da economia do livro, descontingenciando as verbas do principal programa do livro do Ministério da Cultura, o "MAIS CULTURA", que levará bibliotecas a todos os municípios brasileiros, levará mais, modernização de acervos. Eu fico muito honrada de "O Elefante Infante" e "O Sapo Apaixonado" , além de "Mata Atlântica: vinte razões para amá-la" terem sido livros incluídos nesse estupendo programa de modernização. A maior parte dos livros impressos encontram-se retidos nos armazéns da gráfica, à espera, e nós temos novos livros especiais para fazer. Contamos com esse dinheiro. Para a vida das pequenas editoras.

Wednesday, May 20, 2009

Feira de Livros no Colégio São Domingos

Sábado, 16 de maio. Feira de Livros no Colégio São Domingos, da Rua Monte Alegre, das Perdizes. Mesas pelo pátio da escola com os livros expostos. A simpatia das pessoas do colégio e do organizador Ronaldo, da Editora Alameda. Ele nos convidou e lá fomos para uma verdadeira feira de livros, que não era uma quermesse, mas uma verdadeira feira de livros, em que o livro era o protagonista. Alunos, pais de alunos, professores, bibliotecários, contadores de histórias, todos se aproximavam dos livros, folheavam, acolhiam, compravam. A Musa fez sua estreia lá no colégio em clima de convivência prazerosa. Mais feliz ficou com a acolhida do público para "O Elefante Infante", do Rudyard Kipling e para todos os seus livros infantis especiais, que são poucos, mas privilegiam o conteúdo e a edição. Obrigada, Colégio São Domingos pela acolhida às Editoras da Libre entre as outras editoras. No bairro há outros colégios que precisam se abrir para as pequenas editoras da Libre, que gostam de fazer a diferença.

Ser editor, hoje. Ir ao encontro do leitor de todas as idades. Um menino insistia com o pai, sendo chamado para ir embora: "Pai, quero um livro!" Como se pedisse uma guloseima, um tênis, um jogo. O livro no reino da necessidade de um menino. Isto é tudo.

Sunday, May 10, 2009

Poços de Caldas Caxambu Livros

Ser editor, hoje, ganhar o mundo. Por isso precisamos ter um tempo para cada livro. Mostrá-lo em todos os lugares.

Aonde fui nesta longa ponte dos feriados de Tiradentes e primeiro de maio? Peguei um táxi para Caxambu, carregando caixas de livros. Desembarquei no Hotel Glória. Ali meu irmão, o professor Sergio Roberto Costa, promovia com sua equipe o V SINAL: Simpósio Internacional de Letras Fronteiras do Contemporâneo -- Linguagem/Espaço/Máquina. Foi o primeiro lugar em que apresentei o Artemídia e Cultura Digital, com ótima acolhida, entre os presentes nacionais e os convidados internacionais. Lá se mostraram também os livros infantis especiais, O Sapo Apaixonado, do Donizete Galvão, com ilustrações de Mariana Massarani e O Elefante Infante, de Rudyard Kipling, tradução de Adriano Messias e ilustrações do Fernando Vilela. Que também tiveram acolhida e saída. Não se deve levar a um evento apenas os títulos focados diretamente nos assuntos do evento, os livros instrumentais. É preciso levar a diversidade e o que é especial nessa diversidade. Por isso arranjamos público ao meio do mar de lançamentos, livros como tempestade de areia a cobrir as praças e nossos olhos.

Na manhã de sábado, 25 de abril, eu entro numa sessão plenária, a própria mesa de encerramento, Multiletramento e Espaço Cultural: a voz e a letra, com as professoras Roxane Rojo (Unicamp) e Inês Signorini (Unicamp) e uma expressão lançada na fala bateu em mim e eu esqueci todo o resto: "o analfabetismo na cultura ocidental". Enfim, a luz. Ainda quero saber mais, falar mais. Este o nosso grande problema generalizado. Todos os especialistas e pseudoespecialistas analfabetos na nossa própria cultura ocidental. Ninguém quer História, ninguém quer Letras, ninguém quer Arte, ninguém quer Matemática. Ninguém quer nada, apenas o falso misticismo e um pseudo-orientalismo de moda. Mesmo os que passaram a ignorar a cultura ocidental desde o berço, desde a escola, por desconhecê-la, não conseguiram se alfabetizar nas outras culturas que arranham pelas vias do modismo, nunca do aprofundamento respeitoso. Eu sou o fruto da cultura ocidental, da rica tradição judaico-cristã e não vou negar isso, nem a "máquina do barroco", assunto de Alcir Pécora em sua fala plenária, também neste V Sinal.

Sergio Roberto Costa, professor precocemente aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora, andou pela Hungria, logo após deixar sua universidade, lecionando durante dois anos na Universidade de Budapeste. Voltou, foi para o interior de Minas, a convite, implantar cursos de pós-graduação na UNINCOR (Três Corações). Tudo com o apoio da Capes, Fapemig, CNPq, logotipos que integram as peças do V Sinal, além de outros apoiadores locais, Como Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Caxambu e o Hotel Glória, em que a hospedagem coletiva foi encontro feliz de muitos. Para mim, foi um retorno, pois eu nasci e vivi a infância entre as águas virtuosas (não é dupla regência, e se for).

No sábado mesmo, à tarde, viajei para Poços de Caldas no táxi do Bento, cheio de livros. Para participar da Feira Nacional de Poços de Caldas, de 25 de abril a 3 de maio. Se Caxambu, um evento universitário valeu a pena também financeiramente, o mesmo não posso dizer da feira de Poços de Caldas. Professores universitários ausentes e público consumidor de bugigangas impressas, salvo exceções. Mas valeu a pena, pela simpatia dos organizadores, convidados, visitas das cidades vizinhas e escolas. Por emendar Caxambu com a feira de Poços, não me preparei com as promoções para os escolares. Nunca com bugigangas dos impressos berrantes sem conteúdo, isto jamais, melhor morrer de fome do que transigir. Foi uma festa e eu quero voltar. Falarei das atrações e da homenagem a Guimarães Rosa (era o patrono) em posto especial.

Poços de Caldas é a mais bela das estâncias hidrominerais da região. Encantei-me com a cidade. Meu Hotel estava integrado à Praça Getúlio Vargas, em que está situado o relógio floral e as charretes. Numa delas, no domingo, antes do início diário do evento, passeei pela cidade. Voltei para casa com o propósito de morar em Poços de Caldas. Levar parte da Editora para lá, uma filial e o Departamento Editorial, a matriz poderá ficar em um escritório da Acaiaca, onde se encontra a logística da Musa.

Eu preciso dessa cidade plana, cercada de montanhas (não tão belíssimas com as da Serra da Mantiqueira, em Itajubá), nela posso caminhar, ir e voltar entre jardins originários sem o massacre predatório da ignorância modernosa de certas administrações públicas. São os jardins fiéis às suas origens delicadas, jardins fiéis de Poços de Caldas à sensibilidade de seus criadores, não importa em que época, jardineiros sensíveis criaram os jardins de Poços de Caldas. Se eu me migrar para o interior, estou escolhendo Poços de Caldas, pois Poços de Caldas me parece a mais cosmopolita das cidades do interior de Minas. Está sobre a cratera de um vulcão, onde estamos todos. A diferença, lá o vulcão está extinto.

Monday, March 23, 2009

Eu faço livros como quem morre

Parodiando Manuel Bandeira: "Eu faço versos como quem morre"

Eu faço livros como quem morre.

Mas estou viva. Mais viva fico quando o livro sai do prelo. Livros como seres vivos é o slogan da Musa. O livro sai do prelo e é um ser vivo.

Está saindo "Artemídia e Cultura Digital" que inaugura a também coleção da Musa, dentro da Biblioteca Aula, Musa Artemídia e Cultura Digital. Tenho muito a falar sobre este livro. E começo a anunciar agora.

Estou preocupada é com a espera, com o descompasso a que somos submetidos, entramos em programas de governo, fazemos livros para entregar aos programas governamentais da Cultura, e o agendamento das entregas é adiado, parcelado, enquanto tivemos de fazer os livros na totalidade, pois fazer em pequenas tiragens geraria custo inviável. Entramos em descompasso, desequilíbrio, aguardando os pagamentos da área da cultura contingenciados pelo executivo nacional e as gráficas querem receber, não?

SOS Cultura, bom título de uma matéria do Estadão.

O ministro Juca Ferreira começa a ouvir os editores. Mas precisa ouvir também não somente no que tange à Lei Rouanet, mas à execução dos programas, o Mais Cultura, por exemplo, sem adiamentos de agenda, sem possíveis contingenciamentos de verbas. Afinal, as gráficas nos financiam ou financiamos a edição com nosso nenhum dinheiro. Os livros ficam prontos e esperam. É um milagre.

"A vida é um milagre" Outro verso de Manuel Bandeira. Mas eu prefiro:

Eu faço livros como quem morre.

Não consigo escrever, comentar o que preciso agora, porque a pressão é medonha. Precisam ouvir os editores. Prestigiar o livro, a vida do livro, prestigiando mesmo os editores, libertando-os das regras de cada gincana medonha. Odeio gincanas e apostilas que roubam o conteúdo dos livros para destroçá-los e fazer o gozo monetário dos espertos e mastigadores da mediocridade.

Meu mundo não é o mundo dos espertos.

Eu faço livros como quem morre. Para ficar viva.